Laccobriga é edificada pelo povo Lacão, cerca de 1899 antes de Cristo e fundada por Brigo, quarto rei das Hespanhas, neto de Túbal, querendo significar Lago de Brigo, referindo-se ao paúl junto do monte Moleão.
Após os celtas também a ocuparam e implantaram a sua cultura e depois os cartagineses também o fizeram, chefiados pelo capitão Barca, segundo crónicas de Estrabão, vol. III (PAULA, 1992, p.350).
Por volta de 356 aC, o capitão cartaginês, Bohodes, cria um novo povoamento no local mais alto desta zona – (nova) Laccobriga. Isto aconteceu por motivos estratégicos e porque houve um forte terramoto antes desta data que deve ter engolido toda esta população da área do paúl e todo o povoamento e bens. Os poucos habitantes que terão restado, sabe-se lá onde estavam na altura deste acontecimento, traumatizados por tudo o que aconteceu e com as novas populações deslocaram-se para habitarem na colina mais alta – colina da Nossa Senhora da Graça – que se encontra exactamente no lado oposto ao Monte do Moleão com três ribeiras de permeio – ribeira dos Touros, ribeira das Naus e ribeira de Bensafrim – rio de Lagos (algures entre Bensafrim e a foz do rio em Lagos, a ribeira passou a rio porque sempre ouvi toda a gente dizer "rio"). Só este cataclismo justifica este facto de lhe darem o mesmo nome. Se o cataclismo não tivesse acontecido, seria atribuído um outro nome, certamente. A pouco e pouco, os habitantes foram perdendo o medo e voltaram a repovoar a zona do paúl pelas suas excelentes hortas. Antigos geógrafos da época romana registaram a existência de duas localidades com o mesmo nome. (PAULA, 1992, p.351) Assim começaram a chamar à da colina Nova Lacóbriga para fazer a diferença. No livro Corografia de S. Lopes e JP Rocha, menciona-se a existência de uma feira, fundada por Bohones, cartaginês, com grande afluência de estrangeiros, por volta do ano 350 antes de Cristo; acredito que no sopé da colina de Nossa Senhora do Carmo por ser o sopé mais longo e horizontal, pois vinham de barco, a grande via de comunicação destas duas localidades. (PAULA, 1992, p.351) Nem a primitiva Lacobriga nem a nova Lacobriga tinham cerca/muralhas. A cerca surge quando os adversários dos cartagineses – gregos e posteriormente romanos - começam a atacar esta colónia durante a II Guerra Púnica. Assim as muralhas da cerca não cercam o Castelo do Governador, mas pegam com ele. A nova Lacobriga dista 03 km do local da antiga Lacobriga e situa-se a 37 6 20 LTW e a 29 LGE (meridiano de Lisboa).
Sobre o Castelo da (Nova) Lacóbriga, sabemos que foi construído na altura do povoamento por volta de 356 aC. (PAULA, 1992, no esquema 1 da p.20) O castelo foi construído em tempo de paz nesta zona e por isso sem muralhas e situou-se sempre onde actualmente vemos a janela manuelina nas muralhas. Ainda sobre o castelo, é de salientar documento mencionado por JP Rocha no seu livro Monografia de Lagos que nos informa que «Porto Haníbal fica junto à residência do Governador Provincial Olin na cidade de Lacóbriga junto ao mar.» (PAULA, 1992, p.353). O cais foi construído com o castelo e ficava junto deste, conforme mostram os esquemas 2 e 3 das pp. 22 e 33, pois as águas confluentes da foz do rio e do oceano Atlântico batiam nas paredes do castelo. Também segundo mapa na p.57, nº24, existia uma cisterna para abastecer o castelo de água doce e fazer face às necessidades relacionadas com o Governador e sua família e existiu desde a construção do mesmo. Este foi sempre a moradia do Governador do povoamento e sua família e também lugar defensivo. Também dentro do castelo existia um poço para abastecimento de água à população. Sabemos por documentos que no ano 76 aC a cidade foi cercada pelo Consul Quinto Cecílio Metelo Pio, Governador da Hispânia Ulterior, com o objectivo de fazer a cidade se render pela sede, já que a população só tinha um poço dentro das muralhas, na parte Sueste (PAULA, 1992, p.57, nº42). Foi vencido por Sertório, ex-Governador da Hispânia, que acorreu a defender Lacóbriga (PAULA, 1992, p.351), fazendo chegar à cidade 2000 odres de água que foram transportados por espanhóis e mouros (PAULA, 1992, p.21) e assim a cidade conseguiu resistir e libertar-se.
Regressando à história da cerca da Nova Lacóbriga, esta tem a forma de quadrilátero com castelo do Governador virado para a baía e junto ao cais. A cerca rodeia o povoamento e situa-se desde o cimo da colina até ao rio de Lagos, desde a costa até ao sopé da Ribeira dos Touros. A igreja situava-se dentro da cerca (actualmente diz-se "muralhas") e no cimo da colina, perto da Porta da Vila e em 1190, esta, a igreja de Nossa Senhora da Graça, é doada ao Mosteiro de Fora pelo Bispo de Lagos e foi refundada pelos milaneses, mestres e pescadores de Lagos que passaram a habitar a parte murada, após a libertação de Lagos da ocupação moura.
As muralhas quadrangulares em volta da Nova Lacóbriga tinham duas portas principais: uma Norte – Porta de Portugal que tinha ponte levadiça sobre a ribeira dos Touros e donde partiam o caminho para Sagres e o caminho para o norte de Portugal passando este pela foz da ribeira das Naus com uma passagem de madeira, bifurcando este caminho perto da ponte romana para dar acesso à Lacóbriga primitiva. Havia outra porta principal a Sudoeste – Porta da Vila, perto da igreja de Nossa Senhora da Graça. Havia também três portas secundárias: uma na muralha Oeste - Porta dos Quartos, outra porta secundária numa das pontas (a de Nordeste, perto da Ermida de Nossa Senhora da Conceição) da muralha - Porta do Postigo e outra junto ao cais – Porta da Alfândega.
De 418 (PAULA, 1992, p.146) a 716, os visigodos implantaram a sua cultura nesta área e cristianizaram-se, elevando a cidade Lacóbriga a sede de Bispado. Segundo documentos, depois:
Em 716, Lagos foi tomada pelos mouros.
Por volta de 850, é libertada e volta a ser cristã.
Em 912, volta a ser tomada pelos mouros.
(...), volta a ser cristã.
Em finais do século X, volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1189, é libertada e volta a ser cristã.
Em 1191, volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1198, é libertada e volta a ser cristã.
(...), volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1227, é libertada e volta a ser cristã.
(...), volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1241, é libertada e volta a ser cristã, permanecendo cristã. Nesta altura, sob o comando de D. Francisco Paio Peres Correia. Nesta altura apenas restava um núcleo de pescadores intramuros e o Castelo (p.354). Em 525 anos, Lagos passa de sede de Bispado a aldeia quase sem habitantes.
No reinado de D. Afonso IV, segundo documento de 1332, este manda completar a cerca de Lagos porque estava praticamente inexistente devido à ocupação moura. O objectivo principal da reconstrução das muralhas à volta do povoamento é defendê-la dos ataques dos mouros que continuam a tentar ocupá-la de uma forma persistente, segundo carta do Governador de Lagos a D. Afonso IV, datada de 1332.
Na p. 43, (PAULA, 1992) lê-se que «Lagos está assentada ao longo da costa do mar e que tem uma baía de légua e meia de praia na qual se pode desembarcar com todo o género de navio. Esta cidade tem comércio com todo o Levante e Poente de donde vem a ela muitos navios e embarcações de toda a sorte com vária mercadoria e isto por causa de grande carregação de atuns e sardinhas e outros peixes que nela há abundantemente e o próprio vinho e pão. É uma cidade sadia e de muito bons ares e a água não lhe falta e é razoavelmente povoada e de gente de toda a sorte.»
Domingos de Mello, deputado no Congresso em Lisboa e natural de Lagos, afirma que "nenhuma das cidades marítimas de Portugal tem uma baía tão bela, espaçosa e capaz como Lagos coberta dos ventos Norte-Noroeste e Oeste-Noroeste aonde em todos os tempos as armadas nacionais e estrangeiras ou fossem navegando para o Mediterrâneo ou vindo para o Oceano, ali faziam escala para se refazerem de refrescos, carnes e da preciosa água que tem." (PAULA, 1992, p.67)
Esta informação também era verdadeira para os séculos XIV e XV e toda a família real o sabia, pois Lagos era uma cidade muito conhecida na época exactamente por causa destas suas características. O Infante D. Henrique também o sabia e o rei D. João I e assim escolheram Lagos para base estratégica na defesa de Ceuta, provendo esta água, alimentos e bens que lá fossem necessários para consumo, defesa e comércio.
O Infante D. Henrique encontrou uma cidade dividida, com dois níveis muito acentuados de gente que se odiava: um grupo – o dos privilegiados – de ordem defensiva, vivendo na cidade murada; outro grupo – o dos não-honrados – de produção e vivendo na área mais baixa e mais afastada da cidade. De permeio, uma colina não habitada onde pastava gado bovino.
Primeira vontade decisiva do Infante D. Henrique foi acabar com esta discriminação e situação. Reuniu os melhores técnicos europeus em urbanização que conhecia e o planeamento urbanístico começou.
Assim ficou decidido drenar as duas ribeiras – Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus – e enchê-las de terra para construir dois largos caminhos.
Segunda decisão essencial – passar a cidade de um pólo murado e outro extramuros para três pólos dentro da cidade murada, um em cada colina:
1.o – Pólo da igreja Nossa Senhora da Graça que passa a pólo da Ermida Nossa Senhora da Graça. A igreja Nossa Senhora da Graça passa para Sagres no interior da futura Fortaleza de Sagres e a fazer parte deste complexo do qual faria parte também a Escola de Estudos Superiores Náuticos com a célebre rosa-dos-ventos que ainda hoje lá existe e as instalações da dita Escola.
2.o – Pólo da igreja de Santa Maria da Graça. A igreja da cidade de Lagos passa a situar-se no centro da nova cidade murada na parte baixa da colina do meio – futura colina de Nossa Senhora do Carmo – chamar-se-á igreja de Santa Maria da Graça e ficará perto do porto que se situava junto da Casa do Governador. Este novo pólo a criar terá dois núcleos : um na baixa, rodeando a igreja da cidade ligado à exportação e importação e ao comércio local e outro pólo no alto da colina rodeando a futura ermida Nossa Senhora do Carmo, pólo ligado aos habitantes que cuidavam dos terrenos agrícolas de sequeiro que a rodeavam.
3.o – Pólo da ermida de Nossa Senhora da Conceição que reúne a sua população tradicional da colina (pescadores), da zona baixa ao longo do rio de Lagos (comerciantes) e das hortas (agricultores) da primitiva Lacóbriga (já extramuros).
A concretização deste planeamento ultrapassará a vida do Infante D. Henrique. Será o rei D. Manuel I que mandará construir as muralhas estabelecidas neste plano e assim completar este projecto gigantesco do Renascimento realizado na cidade de Lagos quatrocentista.
Assim a nova cidade murada de Lagos henriquina assemelha-se a uma coroa real olhando para o Atlântico com três pontas e mais duas formando a base: cinco pontas, um pentágono. No interior deste pentágono desenha-se a Cruz de Cristo, (Ordem do Infante D. Henrique promotora dos Descobrimentos juntamente com Coroa Real Portuguesa) unindo longitudinalmente a Ermida de Nossa Senhora da Graça com a Ermida de Nossa Senhora da Conceição e unindo verticalmente a Ermida Nossa Senhora do Carmo com a igreja Matriz Santa Maria da Graça.
Nos finais do século XV, após a morte do Infante D. Henrique, havia já formadas três aldeias na vila de Lagos murada resultantes da sua urbanização – Porta do Postigo (ao redor da Ermida de Nossa Senhora da Conceição), Porta dos Quartos (ao redor da ermida Nossa Senhora do Carmo e Porta da Vila (ao redor da ermida de Nossa Senhora da Graça) e a área entre as anteriores Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus estava quase totalmente ocupada e chegava à urbanização da Porta do Postigo.
No século XVI, dentro do castelo, foi edificado o Palácio dos Governadores, Capitães-Generais do Algarve.
Entre 1688 – 90, foram feitas obras de conservação e melhoramentos do Castelo dos Governadores e foram construídos o jardim e a escadaria do Palácio.
Em 1755, o castelo e o palácio ficaram arruinados pelo terramoto e não foram reconstruídos.
Em finais do século XVIII, a Casa do Governador foi construída na antiga Praça de Touros, nesta altura denominada Praça dos Paços do Concelho ao lado do Armazém Regimental e tendo à frente a dita praça. Os Paços do Concelho ficavam no edifício da actual Messe Militar que em 1804, passaram a Hospital Militar e depois a messe.(PAULA, 1992, p.175)
Em 1798, começam a ser construídos os Paços do Concelho na actual Praça Gil Eanes e em 1805 continuam em obras.
Em 1808, há um incêndio e ardem os Paços do Concelho da Praça dos Paços do Concelho.
A 07 de Maio de 1850, os terrenos e as ruínas existentes dos dois edifícios do Castelo, que se situavam entre o hospital e o quartel, foram cedidos à Misericórdia de Lagos para aumentarem as enfermarias.
Em 1884, há outro incêndio nos Paços do Concelho, desta vez na Praça Gil Eanes.
Em 1938 – 40, construiu-se a Avenida da Guiné que passava junto do castelo
Em 1958 – 60, foram demolidas as ruínas ainda existentes. Foi construída a EN 125 e as muralhas foram cortadas para este fim e recuperadas e abriu-se a Porta de S. Gonçalo. O espaço do castelo e palácio foram integrados no Hospital de Lagos. (PAULA, 1992, p.329)
Parece-me da maior urgência recuperar o castelo e o palácio para o património histórico de Lagos, já que o castelo faz parte da arquitectura de Lagos desde os inícios do povoamento primitivo da Nova Lacóbriga. Claro que foi sendo remodelado ao longo dos séculos conforme a cultura urbanística do povo dominante da altura, mas tudo isso só enriqueceu este património.
BIBLIOGRAFIA
PAULA, Rui M.; Lagos – evolução urbana e património; edição de Câmara Municipal de Lagos; Lagos, Outubro de 1992.
CORREIA, Crisanto; Curiosidades sobre a nossa terra; edição de Bombeiros Voluntários de Lagos; Lagos, 1977.
MEDINA João; História de Portugal; edição EDICLUBE; vol. III e IV; Alfragide – Amadora, 1994, pp.403.
OLIVEIRA Manuel Alves de; O Grande Livro dos Portugueses; edição nº 2964; Círculo de Leitores, Lda., Novembro de 1990, pp. 518.
SARAIVA José Hermano; História Concisa de Portugal; 6ª edição, colecção Saber, vol. 123, Mem Martins - Sintra, Publicações Europa-América, Setembro de 1980, pp.359. ❐



















