sábado, 1 de outubro de 2011

As muralhas de Lagos

Laccobriga é edificada pelo povo Lacão, cerca de 1899 antes de Cristo e fundada por Brigo, quarto rei das Hespanhas, neto de Túbal, querendo significar Lago de Brigo, referindo-se ao paúl junto do monte Moleão.
Após os celtas também a ocuparam e implantaram a sua cultura e depois os cartagineses também o fizeram, chefiados pelo capitão Barca, segundo crónicas de Estrabão, vol. III (PAULA, 1992, p.350).
Por volta de 356 aC, o capitão cartaginês, Bohodes, cria um novo povoamento no local mais alto desta zona – (nova) Laccobriga. Isto aconteceu por motivos estratégicos e porque houve um forte terramoto antes desta data que deve ter engolido toda esta população da área do paúl e todo o povoamento e bens. Os poucos habitantes que terão restado, sabe-se lá onde estavam na altura deste acontecimento, traumatizados por tudo o que aconteceu e com as novas populações deslocaram-se para habitarem na colina mais alta – colina da Nossa Senhora da Graça – que se encontra exactamente no lado oposto ao Monte do Moleão com três ribeiras de permeio – ribeira dos Touros, ribeira das Naus e ribeira de Bensafrim – rio de Lagos (algures entre Bensafrim e a foz do rio em Lagos, a ribeira passou a rio porque sempre ouvi toda a gente dizer "rio"). Só este cataclismo justifica este facto de lhe darem o mesmo nome. Se o cataclismo não tivesse acontecido, seria atribuído um outro nome, certamente. A pouco e pouco, os habitantes foram perdendo o medo e voltaram a repovoar a zona do paúl pelas suas excelentes hortas. Antigos geógrafos da época romana registaram a existência de duas localidades com o mesmo nome. (PAULA, 1992, p.351) Assim começaram a chamar à da colina Nova Lacóbriga para fazer a diferença. No livro Corografia de S. Lopes e JP Rocha, menciona-se a existência de uma feira, fundada por Bohones, cartaginês, com grande afluência de estrangeiros, por volta do ano 350 antes de Cristo; acredito que no sopé da colina de Nossa Senhora do Carmo por ser o sopé mais longo e horizontal, pois vinham de barco, a grande via de comunicação destas duas localidades. (PAULA, 1992, p.351) Nem a primitiva Lacobriga nem a nova Lacobriga tinham cerca/muralhas. A cerca surge quando os adversários dos cartagineses – gregos e posteriormente romanos - começam a atacar esta colónia durante a II Guerra Púnica. Assim as muralhas da cerca não cercam o Castelo do Governador, mas pegam com ele. A nova Lacobriga dista 03 km do local da antiga Lacobriga e situa-se a 37 6 20 LTW e a 29 LGE (meridiano de Lisboa).
Sobre o Castelo da (Nova) Lacóbriga, sabemos que foi construído na altura do povoamento por volta de 356 aC. (PAULA, 1992, no esquema 1 da p.20) O castelo foi construído em tempo de paz nesta zona e por isso sem muralhas e situou-se sempre onde actualmente vemos a janela manuelina nas muralhas. Ainda sobre o castelo, é de salientar documento mencionado por JP Rocha no seu livro Monografia de Lagos que nos informa que «Porto Haníbal fica junto à residência do Governador Provincial Olin na cidade de Lacóbriga junto ao mar.» (PAULA, 1992, p.353). O cais foi construído com o castelo e ficava junto deste, conforme mostram os esquemas 2 e 3 das pp. 22 e 33, pois as águas confluentes da foz do rio e do oceano Atlântico batiam nas paredes do castelo. Também segundo mapa na p.57, nº24, existia uma cisterna para abastecer o castelo de água doce e fazer face às necessidades relacionadas com o Governador e sua família e existiu desde a construção do mesmo. Este foi sempre a moradia do Governador do povoamento e sua família e também lugar defensivo. Também dentro do castelo existia um poço para abastecimento de água à população. Sabemos por documentos que no ano 76 aC a cidade foi cercada pelo Consul Quinto Cecílio Metelo Pio, Governador da Hispânia Ulterior, com o objectivo de fazer a cidade se render pela sede, já que a população só tinha um poço dentro das muralhas, na parte Sueste (PAULA, 1992, p.57, nº42). Foi vencido por Sertório, ex-Governador da Hispânia, que acorreu a defender Lacóbriga (PAULA, 1992, p.351), fazendo chegar à cidade 2000 odres de água que foram transportados por espanhóis e mouros (PAULA, 1992, p.21) e assim a cidade conseguiu resistir e libertar-se.
Regressando à história da cerca da Nova Lacóbriga, esta tem a forma de quadrilátero com castelo do Governador virado para a baía e junto ao cais. A cerca rodeia o povoamento e situa-se desde o cimo da colina até ao rio de Lagos, desde a costa até ao sopé da Ribeira dos Touros. A igreja situava-se dentro da cerca (actualmente diz-se "muralhas") e no cimo da colina, perto da Porta da Vila e em 1190, esta, a igreja de Nossa Senhora da Graça, é doada ao Mosteiro de Fora pelo Bispo de Lagos e foi refundada pelos milaneses, mestres e pescadores de Lagos que passaram a habitar a parte murada, após a libertação de Lagos da ocupação moura.
As muralhas quadrangulares em volta da Nova Lacóbriga tinham duas portas principais: uma Norte – Porta de Portugal que tinha ponte levadiça sobre a ribeira dos Touros e donde partiam o caminho para Sagres e o caminho para o norte de Portugal passando este pela foz da ribeira das Naus com uma passagem de madeira, bifurcando este caminho perto da ponte romana para dar acesso à Lacóbriga primitiva. Havia outra porta principal a Sudoeste – Porta da Vila, perto da igreja de Nossa Senhora da Graça. Havia também três portas secundárias: uma na muralha Oeste - Porta dos Quartos, outra porta secundária numa das pontas (a de Nordeste, perto da Ermida de Nossa Senhora da Conceição) da muralha - Porta do Postigo e outra junto ao cais – Porta da Alfândega.
De 418 (PAULA, 1992, p.146) a 716, os visigodos implantaram a sua cultura nesta área e cristianizaram-se, elevando a cidade Lacóbriga a sede de Bispado. Segundo documentos, depois:
Em 716, Lagos foi tomada pelos mouros.
Por volta de 850, é libertada e volta a ser cristã.
Em 912, volta a ser tomada pelos mouros.
(...), volta a ser cristã.
Em finais do século X, volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1189, é libertada e volta a ser cristã.
Em 1191, volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1198, é libertada e volta a ser cristã.
(...), volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1227, é libertada e volta a ser cristã.
(...), volta a ser tomada pelos mouros.
Em 1241, é libertada e volta a ser cristã, permanecendo cristã. Nesta altura, sob o comando de D. Francisco Paio Peres Correia. Nesta altura apenas restava um núcleo de pescadores intramuros e o Castelo (p.354). Em 525 anos, Lagos passa de sede de Bispado a aldeia quase sem habitantes.
No reinado de D. Afonso IV, segundo documento de 1332, este manda completar a cerca de Lagos porque estava praticamente inexistente devido à ocupação moura. O objectivo principal da reconstrução das muralhas à volta do povoamento é defendê-la dos ataques dos mouros que continuam a tentar ocupá-la de uma forma persistente, segundo carta do Governador de Lagos a D. Afonso IV, datada de 1332.
Na p. 43, (PAULA, 1992) lê-se que «Lagos está assentada ao longo da costa do mar e que tem uma baía de légua e meia de praia na qual se pode desembarcar com todo o género de navio. Esta cidade tem comércio com todo o Levante e Poente de donde vem a ela muitos navios e embarcações de toda a sorte com vária mercadoria e isto por causa de grande carregação de atuns e sardinhas e outros peixes que nela há abundantemente e o próprio vinho e pão. É uma cidade sadia e de muito bons ares e a água não lhe falta e é razoavelmente povoada e de gente de toda a sorte.»
Domingos de Mello, deputado no Congresso em Lisboa e natural de Lagos, afirma que "nenhuma das cidades marítimas de Portugal tem uma baía tão bela, espaçosa e capaz como Lagos coberta dos ventos Norte-Noroeste e Oeste-Noroeste aonde em todos os tempos as armadas nacionais e estrangeiras ou fossem navegando para o Mediterrâneo ou vindo para o Oceano, ali faziam escala para se refazerem de refrescos, carnes e da preciosa água que tem." (PAULA, 1992, p.67)
Esta informação também era verdadeira para os séculos XIV e XV e toda a família real o sabia, pois Lagos era uma cidade muito conhecida na época exactamente por causa destas suas características. O Infante D. Henrique também o sabia e o rei D. João I e assim escolheram Lagos para base estratégica na defesa de Ceuta, provendo esta água, alimentos e bens que lá fossem necessários para consumo, defesa e comércio.
O Infante D. Henrique encontrou uma cidade dividida, com dois níveis muito acentuados de gente que se odiava: um grupo – o dos privilegiados – de ordem defensiva, vivendo na cidade murada; outro grupo – o dos não-honrados – de produção e vivendo na área mais baixa e mais afastada da cidade. De permeio, uma colina não habitada onde pastava gado bovino.
Primeira vontade decisiva do Infante D. Henrique foi acabar com esta discriminação e situação. Reuniu os melhores técnicos europeus em urbanização que conhecia e o planeamento urbanístico começou.
Assim ficou decidido drenar as duas ribeiras – Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus – e enchê-las de terra para construir dois largos caminhos.
Segunda decisão essencial – passar a cidade de um pólo murado e outro extramuros para três pólos dentro da cidade murada, um em cada colina:
1.o – Pólo da igreja Nossa Senhora da Graça que passa a pólo da Ermida Nossa Senhora da Graça. A igreja Nossa Senhora da Graça passa para Sagres no interior da futura Fortaleza de Sagres e a fazer parte deste complexo do qual faria parte também a Escola de Estudos Superiores Náuticos com a célebre rosa-dos-ventos que ainda hoje lá existe e as instalações da dita Escola.
2.o – Pólo da igreja de Santa Maria da Graça. A igreja da cidade de Lagos passa a situar-se no centro da nova cidade murada na parte baixa da colina do meio – futura colina de Nossa Senhora do Carmo – chamar-se-á igreja de Santa Maria da Graça e ficará perto do porto que se situava junto da Casa do Governador. Este novo pólo a criar terá dois núcleos : um na baixa, rodeando a igreja da cidade ligado à exportação e importação e ao comércio local e outro pólo no alto da colina rodeando a futura ermida Nossa Senhora do Carmo, pólo ligado aos habitantes que cuidavam dos terrenos agrícolas de sequeiro que a rodeavam.
3.o – Pólo da ermida de Nossa Senhora da Conceição que reúne a sua população tradicional da colina (pescadores), da zona baixa ao longo do rio de Lagos (comerciantes) e das hortas (agricultores) da primitiva Lacóbriga (já extramuros).
A concretização deste planeamento ultrapassará a vida do Infante D. Henrique. Será o rei D. Manuel I que mandará construir as muralhas estabelecidas neste plano e assim completar este projecto gigantesco do Renascimento realizado na cidade de Lagos quatrocentista.
Assim a nova cidade murada de Lagos henriquina assemelha-se a uma coroa real olhando para o Atlântico com três pontas e mais duas formando a base: cinco pontas, um pentágono. No interior deste pentágono desenha-se a Cruz de Cristo, (Ordem do Infante D. Henrique promotora dos Descobrimentos juntamente com Coroa Real Portuguesa) unindo longitudinalmente a Ermida de Nossa Senhora da Graça com a Ermida de Nossa Senhora da Conceição e unindo verticalmente a Ermida Nossa Senhora do Carmo com a igreja Matriz Santa Maria da Graça.
Nos finais do século XV, após a morte do Infante D. Henrique, havia já formadas três aldeias na vila de Lagos murada resultantes da sua urbanização – Porta do Postigo (ao redor da Ermida de Nossa Senhora da Conceição), Porta dos Quartos (ao redor da ermida Nossa Senhora do Carmo e Porta da Vila (ao redor da ermida de Nossa Senhora da Graça) e a área entre as anteriores Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus estava quase totalmente ocupada e chegava à urbanização da Porta do Postigo.
No século XVI, dentro do castelo, foi edificado o Palácio dos Governadores, Capitães-Generais do Algarve.
Entre 1688 – 90, foram feitas obras de conservação e melhoramentos do Castelo dos Governadores e foram construídos o jardim e a escadaria do Palácio.
Em 1755, o castelo e o palácio ficaram arruinados pelo terramoto e não foram reconstruídos.
Em finais do século XVIII, a Casa do Governador foi construída na antiga Praça de Touros, nesta altura denominada Praça dos Paços do Concelho ao lado do Armazém Regimental e tendo à frente a dita praça. Os Paços do Concelho ficavam no edifício da actual Messe Militar que em 1804, passaram a Hospital Militar e depois a messe.(PAULA, 1992, p.175)
Em 1798, começam a ser construídos os Paços do Concelho na actual Praça Gil Eanes e em 1805 continuam em obras.
Em 1808, há um incêndio e ardem os Paços do Concelho da Praça dos Paços do Concelho.
A 07 de Maio de 1850, os terrenos e as ruínas existentes dos dois edifícios do Castelo, que se situavam entre o hospital e o quartel, foram cedidos à Misericórdia de Lagos para aumentarem as enfermarias.
Em 1884, há outro incêndio nos Paços do Concelho, desta vez na Praça Gil Eanes.
Em 1938 – 40, construiu-se a Avenida da Guiné que passava junto do castelo
Em 1958 – 60, foram demolidas as ruínas ainda existentes. Foi construída a EN 125 e as muralhas foram cortadas para este fim e recuperadas e abriu-se a Porta de S. Gonçalo. O espaço do castelo e palácio foram integrados no Hospital de Lagos. (PAULA, 1992, p.329)
Parece-me da maior urgência recuperar o castelo e o palácio para o património histórico de Lagos, já que o castelo faz parte da arquitectura de Lagos desde os inícios do povoamento primitivo da Nova Lacóbriga. Claro que foi sendo remodelado ao longo dos séculos conforme a cultura urbanística do povo dominante da altura, mas tudo isso só enriqueceu este património.

BIBLIOGRAFIA
PAULA, Rui M.; Lagos – evolução urbana e património; edição de Câmara Municipal de Lagos; Lagos, Outubro de 1992.
CORREIA, Crisanto; Curiosidades sobre a nossa terra; edição de Bombeiros Voluntários de Lagos; Lagos, 1977.
MEDINA João; História de Portugal; edição EDICLUBE; vol. III e IV; Alfragide – Amadora, 1994, pp.403.
OLIVEIRA Manuel Alves de; O Grande Livro dos Portugueses; edição nº 2964; Círculo de Leitores, Lda., Novembro de 1990, pp. 518.
SARAIVA José Hermano; História Concisa de Portugal; 6ª edição, colecção Saber, vol. 123, Mem Martins - Sintra, Publicações Europa-América, Setembro de 1980, pp.359. ❐






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Fortaleza de Nossa Senhora da Penha de França/Forte Ponta da Bandeira


A Fortaleza de Nossa Senhora da Penha de França foi mandada construir, não de raiz, por D. Luís da Silveira em 1679, integrada nas obras de fortificação do litoral sul de Portugal, iniciadas em 1657, para defesa da baía de Lagos porque se receava invasões de mouros, vindos do Norte de África. Neste projecto incluem-se o Forte da Praia de S. Roque, mandado construir em 1670, pelo Governador de Lagos, D. Nuno da Cunha Athaíde, Conde de Pontevel, que no mesmo ano mandou também construir o Forte do Porto de Mós, quando era Governador do Algarve, D. Nuno de Mendonça, Conde de Vale de Rei.
A Fortaleza da Penha de França foi concluída em 1690, pelo Marquês de Niza, D. Francisco Luís da Gama, Governador do Algarve.
Com a implantação da república, a fortaleza passou a denominar-se Forte da Ponta da Bandeira.
Em 1958 – 60, o Forte da Ponta da Bandeira é restaurado e foram adoçadas guaritas nos seus cunhais. Tem planta quadrangular, muros elevados sem aberturas, celas no interior do chão com clarabóias no próprio chão, fosso com ponte levadiça, porta de cantaria lavrada – arco enquadrado por duas pilastras e rematado com pedra de armas. Dispõe-se em redor de um pátio central que dá acesso por rampa à plataforma superior para colocação de artilharia. No seu interior, existe uma capela com azulejos do século XVII.














domingo, 16 de janeiro de 2011

A Nova Ponte




Esta ponte abre-se para dar passagem aos iates que se dirigem à marina. É uma ponte moderna cuja construção está associada à construção da marina já que a ponte anterior a esta era totalmente fixa e os barcos com mastro não conseguiam passar por baixo dela. A ponte neste local foi desde o início construída para dar à população acesso mais favorável à estação dos caminhos-de-ferro. A atual ponte, além de dar acesso à estação dos caminhos-de-ferro dá também acesso ao edifício da marinha, às lojas e cafés em frente da marina e à nova doca de Lagos.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Passeio Público

O rio de Lagos e o Passeio Público da Avenida dos Descobrimentos são dois locais que nos atraem bastante em Lagos. É o espaço e o lazer associados à não-preocupação com o trânsito. Os nossos passeios geralmente passam por aqui porque nos descontrai imenso olhar para o rio e o mar, ouvir as gaivotas, encontrar conhecidos e deixar o tempo fluir ...
A urbanização da Avenida dos Descobrimentos a própria Avenida dos Descobrimentos e o Passeio Público constituem toda a largura que foi retirada ao rio de Lagos para pôr ao serviço e lazer da população de Lagos e visitantes. Toda esta remodelação aconteceu em 1960 para comemorar os 500 anos sobre o falecimento do Infante D. Henrique. Foi uma obra bem-vinda e toda a cidade e suas gentes ficaram a ganhar.




segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A caravela "Boa Esperança"

A réplica da caravela Boa Esperança que frequentemente podemos ver no rio de Lagos e que tem várias funções educativas e está a desempenhar o seu papel muito bem neste ano em que se comemorou os 550 anos sobre o falecimento do Infante D. Henrique.